MC não é bandido, nossa estética não é criminosa.
Nossa estética, nossa moda não é crime, uma reflexão sobre arte, favela, representatividade e o enfrentamento à criminalização das culturas periféricas no Brasil.”
Amanda Coelho
6/12/20255 min read
Quem define quem é ou parece bandido?
E ai Beaury’s, você está acompanhando esse babado da criminalização do funk ? A campanha “MC não é bandido” se ergue como grito urgente diante da criminalização da nossa cultura, da nossa estética e da nossa existência. Quem diz o que é ser bandido? Quem define quem deve ser suspeito? A resposta está escancarada, e nossos corpos já sentiram demais o peso dessa resposta.
foto abaixo do Instagram : corte de favela ofc


O controle do Estado sobre nossos corpos
O Estado brasileiro, forjado em estruturas coloniais e racistas, segue tentando controlar nossos corpos: como devemos falar, andar, cantar, nos vestir, sonhar. Mas a nossa cultura não cabe nas molduras da normatividade da branquitudebraquitude, e. e a nossa estética é ampla e abrangente.. .


O caso MC Poze do Rodo
O caso recente do MC Poze do Rodo é só mais uma evidência dessa tentativa de apagamento. Um artista real na influência, real na presença, real na transformação. Não é sobre números nas redes, é sobre impacto nas vidas. A prisão, a exposição da imagem, a tentativa de associá-lo à criminalidade é só mais uma repetição do velho script colonial.
Mas o que o Estado tenta tirar, a arte fortalece, . Aao ser solto, Poze volta à comunidade, unindo-se a outros movimentos e artistas organizados e entregam aquilo que é básico e os estados nos negam: alimentos, afeto, acolhimento, educação, cultura e respeito. . Noós, em comunidade, fomentamos em grande estilo: com festa, brinquedos, música, beleza e estética como território.


O gesto simbólico do cabelo
Em meio a essa movimentação um gesto simbólico se destaca: Poze pinta o cabelo ali mesmo, na rua, diante das câmeras. Descolore, faz o famoso “nevou” (corte na régua descolorido no loiro bem claro , tipo neve ) e essa estética que carrega e afirma história e pertencimento, porque ele demarca a estética da favela porque isso também é poder.
Essa cena fala mais do que mil entrevistas: diz que nossa estética é resistência, é afirmação, é política.
Fotos do Instagram do Mc Poze




A crítica de MC Cabelinho
Outro exemplo potente é o do MC Cabelinho, que vem se destacando não só por sua carreira musical e presença nas telas, mas também por sua postura diante da criminalização das expressões culturais da favela. Em uma fala recente em entrevista com Pedro Bial na TV Globo, ele dá oda o papo reto :
“Se vocês estão incomodados com o que a gente está cantando, com o que tem nas nossas letras, essa é a nossa realidade. Então mudem a nossa realidade ao invés de nosinvés nos matar.”
Essa visãovisao ecoa como um grito de lucidez e urgência. Cabelinho aponta com firmeza que o funk assim como o visual, os comportamentos e as formas de existir nas periferias não são o problema. São reflexos de uma estrutura social que segue produzindo exclusão. Se há incômodo com o que se canta, que se olhe para o que se vive. E se queremos uma mudança de discurso, que ela venha acompanhada de mudança concreta nas políticas públicas e no acolhimento das nossas histórias.
Foto retirada do Instagram Cabelinho


A lei anti-Oruam e o veto à arte de favela
Se, por um lado, o MC Cabelinho aponta com lucidez que o caminho seria investir em políticas públicas que transformem realidades, o que o Estado brasileiro tem feito é justamente o contrário. No lugar de acolher as potências criadas nas favelas, ele responde com mais opressão. É disso que trata a chamada “Lei anti-Oruam ” — uma proposta que, ao invés de fomentar mudanças, sinaliza que quem canta a própria realidade não merece apoio, deve ser silenciado.
A mensagem é clara: “não gostamos do que vocês vivem, do que vocês cantam, de como vocês existem… então, se virem”.
Essa violência não é nova. Foi assim também quando a falsa abolição da escravização foi decretada - , sem reparação, sem terra, sem escola, sem oportunidade. Um povo liberto sem liberdade. Agora, mais de 100 anos depois, seguimos sendo vistos como problema, tratados como ameaça, enquanto nos negam suporte, e criminalizam nossa cultura, arte e dignidade.
A chamada “Lei anti-Oruam” nada mais é do que uma atualização colonial do velho projeto genocida: manter o povo preto, favelado e indígena longe de protagonismo, distante do bem viver! .
É por isso que precisamos estar atentos e ocupar e construir espaços institucionais para barrar esse tipo de absurdo.
No contraponto recentemente, Oruam foi convidado para ser capa de um editorial de moda da revista Dazed, um ensaio impactante, uma capa que reafirma sua potência enquanto símbolo de representatividade da juventude da favela e também a burguesia. Em suas redes sociais, ele compartilhou a contradição de ser marginalizado no Brasil, onde marcas e pessoas evitam se associar/ contratar ele sob a alegação de “apologia ao crime”. Isto, enquanto, em outros contextos, é reconhecido exatamente pelo que é: um jovem potente, que comunica verdades, sonhos e revoluções através da sua arte e da sua estética.
Oruam é, querendo ou não, uma grande referência. Para muitos jovens, ele simboliza um futuro possível, um modo de existir com orgulho da sua origem e com potência de transformação. Em breve, falaremos mais sobre isso. Mas já é preciso afirmar: o que tentam criminalizar como ameaça, o povo reconhece como possibilidades de bem viver .
Fotos retirada do Instagram do Oruam




Nosso corpo é linguagem
Por isso afirmamos: MC não é bandido. Estética de favela não é crime, nosso corpo é linguagem. Nossa estética é memória. Nossa cultura é continuidade e futuro.
Não aceitaremos mais que nossas imagens justifiquem nossas privações de liberdade mortes. Parem de nos matar e nos deixem em paz!.
Fotos do Instagram do Poze







