O que é a Moda Afrofuturista Decolonial

A moda afrofuturista decolonial é um portal. Ela começa no corpo, atravessa a memória, se ancora na ancestralidade e se projeta no amanhã. É um chamado coletivo. Um convite para imaginar futuros onde a nossa estética, a nossa história e os nossos afetos possam ser vividos com dignidade, poder e beleza. E esse caminho é continuidade.

TRAJETÓRIA

Amanda Coelho

5/7/20254 min read

Quando olho para a minha trajetória com a moda, vejo que comecei essa caminhada muito cedo embora só tenha tido consciência disso bem mais tarde. Nos anos 90 e 2000, quando eu era adolescente, era quase impossível acessar uma estética que dialogasse com quem eu realmente era. A gente vivia sob uma imposição violenta: o bonito era o cabelo liso, alisado, chapado de formol no estilo europeu. Tinha gente desmaiando na cadeira do salão, sem exagero, tentando alcançar a tal da “perfeição” capilar segundo o protocolo estético imposto.

A estética embranquecida era uma exigência social para pessoas negras conseguir um emprego, manter um relacionamento, pertencer a determinados círculos. Era como se, para existir com dignidade, a gente precisasse apagar ou negar nossa própria história .

Naquela época, algo dentro de mim já buscava outra coisa, mesmo que eu ainda não soubesse nomear. Era uma inquietação, um desejo de pertencer a mim mesma. Eu ainda não falava de afrofuturismo nem decolonialidade, mas meu corpo já gritava: “tem algo aqui que não cabe”. Meu corpo pedia liberdade.

Foi assim que me conectei com o portal das trançadeiras, e enxerguei a potência desses caminhos. Fiquei encantada com as belezas diversas, as histórias, o legado, os fios que conectam cabeças e memórias. No mundo das tranças, dos penteados, das texturas, fui entendendo o que toda aquela simbologia comunicava, sobretudo, que estávamos falando sobre identidade, pertencimento e ancestralidade.

Ali, entre pentes garfos, linhas, kanekalon, a gente não fazia só cabelo, a gente existia e resistia potencializando nossas narrativas. Porque sabíamos que o nosso corpo ainda era um território em disputa. Cada trança era um gesto de retomada. Cada encontro no salão, um ritual simbólico, cultural e político.

As violências invisíveis da estética impossível

Muitos relatos ecoam até hoje, e eu mesma vivi vários deles com mulheres demitidas por usarem tranças, dreads ou Black no ambiente de trabalho. Ameaças veladas, como “você é ótima, mas essa sua aparência não combina com a empresa”. Companheiros dizendo que preferiam cabelo liso, “mais arrumado”. Mulheres voltando para o salão tristes, até chorando, porque alguém importante para elas disse que a trança não era bonita e que ela não deveria chamar tanto atenção

Foi um tempo duro, mas também um ponto de virada de chave, dentro de muitos salões, começamos a reocupar nossos corpos com nossos símbolos, reforçar nossas histórias. Nesse sentido cabeleireiros, trançadeiras, barbeiros se posicionaram de forma mais estratégica. A estética se reafirmou como plano político que nos fortalece, usamos nossos corpos para abrir caminhos e estimular a nossa comunidade a acessar novos memórias e construir imaginários.

Foi aí que o afrofuturismo começou a se fazer mais presente não só como tendência, mas como mais um Portal para reencontros e reparações históricas.

Você já ouviram a historia ou assistiram vídeo onde trançadeiras colocavam sementes nos cabelos ou faziam mapa para chegar aos quilombos ? Bem as tranças de fato são sobre caminhos , rotas, encruzilhadas , e dentro de muitos salões, éramos uma frente viva de resistência, encruzilhas para se potencializar enquanto o movimento negro por outros lados se articulavam em várias frentes na educação, na política, na cultura nós, trançadeiras, estávamos com a mão no fio e o pensamento no futuro, grande parte de nós conectadas a tudo isso, consciente ou inconscientemente.

Era entre penteados e conversas que a decolonização acontecia entregamos ou potencializávamos autoestima que reverbera...

A retomada do black power, das tranças, das cores vibrantes tudo isso ganhou força, afinal quando se fala de beleza o povo negro não brincam não é meixmooooo!!!

A geração do tombamento chegou logo na sequência, e foi um movimento lindo, e junto, veio o movimento de transição capilar (que falarei com mais profundidade em outro momento), como apoio desse movimento que teve forte influência da geração tombamento . O corpo virou manifesto. E a beleza, uma declaração de rebeldia e amor-próprio.

Foi combustível para seguirmos construindo.



As Trançadeiras Como Frente de Beleza e Caminhos


A geração tombamento reforçou o close político e estético. Foi desfile na rua, Marcha do Orgulho Crespo, Marcha das Mulheres Negras, Encontros de Estéticas das Periferias, saraus, slams, Festival Latinidades, Feira Preta. Salões como o Diva e movimentos como o Afronto de Capulanas (que eu criei) tornaram-se espaços de cura, arte, afirmação, liberdade visual e afetiva.

E então, o afrofuturismo chegou como uma lente de apoio para conectar tudo isso: passado, presente e futuro. Fortalecendo a filosofia de Sankofa, esse princípio ancestral iorubá que ensina que, para seguir adiante, é preciso resgatar o que ficou para trás.

Entendemos que, para criar futuros possíveis, precisávamos lembrar quem fomos, somos e assim desenvolver melhor para onde queremos ir.

Moda Afrofuturista Decolonial: o que é?

É a moda que se recusa a seguir as cartilhas e imposições coloniais. Que não se ancora nas vitrines de marcas que ostentam apenas luxo, mas sim nas memórias das nossas avós, nas mãos das nossas mães, nas conversas de salão, nos penteados que contam histórias.

Moda afrofuturista decolonial é comportamento, é linguagem, é ferramenta de libertação.

É estética, política e ancestralidade.

É a moda que reimagina o futuro a partir das raízes afro-diaspóricas e indígenas.

É a moda que entende beleza como algo que nasce do pertencimento, não da aprovação.

É nisso que acredito e vivencio.


Da Geração Tombamento ao Afrofuturismo