Estética das Seleções na Copa África #CAN25
Este artigo parte da Copa África como ponto de observação para refletir sobre estética masculina, moda e presença. A partir dos trajes usados pelas seleções na chegada em Marrocos na can25, o artigo analisa como tecidos, cores, cortes e escolhas visuais comunicam identidade, memória e pertencimento. Mais do que futebol, a Copa África se apresenta como um território onde o vestir se torna linguagem, revelando masculinidades plurais, conscientes e conectadas às suas origens. Um convite para desacelerar o olhar e reconhecer a potência simbólica da imagem como herança e continuidade.
ANCESTRALIDADES
Amanda Coelho
1/20/20264 min read


A Copa África chega ao seu fim.
Vitória mais do que merecida para o Senegal
E, para além do resultado em campo, fica uma herança igualmente valiosa: as imagens, os gestos e as estéticas que atravessaram essa edição da Copa África e que seguem nos inspirando.
Quando os jogadores entram em campo, todos vestem as camisas oficiais de suas seleções. Mas é na chegada, antes do apito inicial, que algo muito potente acontece. É ali que os corpos falam antes da bola. É ali que a moda deixa de ser apenas roupa e se torna linguagem.
Ao chegarem, cada seleção se apresentou de forma muito consciente, comunicando de onde vem, quem é e o que carrega através dos tecidos, das cores, dos cortes, das texturas e das escolhas estéticas. O vestir, nesse contexto, não é individual. Ele é coletivo, territorial e simbólico, assim como o próprio futebol.
A Copa África, ano após ano, nos ensina que futebol não é apenas sobre ganhar ou perder. É também sobre mensagem, pertencimento e memória. Sobre como um time só existe porque é coletivo e como essa coletividade também se expressa visualmente.
A seguir, compartilho um pouco do que senti ao observar os trajes de algumas seleções e como cada território escolheu se comunicar esteticamente nesse início de Copa.
Senegal
Trajes predominantemente brancos, com poucos detalhes e cortes precisos.
O tecido remete aos algodões nobres amplamente usados na África Ocidental, associados à elegância, espiritualidade e à presença do Islã no Senegal.
O branco aqui não é ausência: é pureza, sofisticação e autoridade silenciosa.
Uma estética que comunica liderança sem excesso.




Nigeria
A Nigéria surge com um verde intenso, estruturado, com costuras marcadas e textura rica muito próximo do Aso Oke ou de tecidos cerimoniais contemporâneos inspirados nele.
O verde não aparece sozinho: ele é mesclado com nuances mais claras que criam profundidade e imponência. O resultado é um corpo que comunica poder, prosperidade e orgulho identitário. É impossível não olhar e reconhecer: ali há força.




Burkina Faso
Burkina Faso traz uma composição sofisticada em verde, vermelho e branco.
Os tecidos dialogam com tradições locais de algodão e tramas artesanais, equilibrando estrutura e leveza. As cores não são decorativas: elas evocam resistência, vitalidade e ligação com a terra. Um vestir que é firme, mas ao mesmo tempo elegante e aberto ao movimento.




Mali
O Mali apresenta trajes em tons de azul profundo, associados diretamente ao bogolan (bogolanfini) tecido tradicional tingido com lama fermentada, símbolo de proteção, espiritualidade e conhecimento ancestral.
O azul no Mali não é apenas cromático: é cosmológico. Ele remete ao rio Níger, à oralidade, à ancestralidade e aos saberes transmitidos de geração em geração.
Os cortes tendem a ser mais amplos e retos, permitindo que o tecido “respire” no corpo. Há uma presença forte de grafismos simbólicos, ainda que sutis, que carregam códigos sociais e espirituais.
O resultado é um vestir que comunica profundidade, tempo e território.




Benin
Benin também dialoga com o azul, mas a partir de outra lógica estética e histórica. Aqui, o azul aparece em tecidos de algodão mais estruturado, muitas vezes ligados às tradições dos antigos reinos da região, como o Reino do Daomé.
Diferente do Mali, o azul de Benin costuma ser mais claro ou mais polido, por vezes combinado com branco ou tons terrosos.
Os cortes são mais definidos, com atenção ao acabamento e à construção da silhueta. O tecido comunica organização social, solenidade e continuidade histórica, menos ritualístico e mais cerimonial.
É um azul que fala de instituição, memória política e elegância formal.




Comores
Comores fez sua estreia na Can25, deu o nome, se apresentou com trajes de forte influência islâmica e swahili, com tecidos fluidos, cortes amplos e uma elegância silenciosa.
As cores brancas e os acabamentos delicados no bordado amarelo remetem a espiritualidade, deslocamento e identidade . O corpo se move com o tecido, e o tecido acompanha as belezas de comores..




Zimbábue
O Zimbábue opta pelo preto como base, terno acompanhado por estampas simbólicas que remetem a padrões geométricos tradicionais da região.
O preto não como neutralidade e sim como consciência estética, um k de introspecção e força simbólica ele tambem se impõe pela presença.


A Copa África nos lembra que o vestir também é jogo coletivo. Que estética é território. Que moda é mensagem.
Seguimos apreciando, contemplando e aprendendo com cada uma dessas belezas.
Senegal Rec 🏆
#CAM25


