Masculinidades Ancestrais: Cabelo, Estética e Tecnologia Antes da Colonização

Antes da colonização, o cabelo masculino era mais do que estética: era linguagem, tecnologia ancestral e expressão de pertencimento. Entre povos africanos e indígenas, os modos de trançar, raspar, adornar e cuidar dos cabelos comunicavam identidade, espiritualidade, posição social e relação com o território. Este artigo convida você a atravessar essas visualidades ancestrais, reconhecendo continuidades, resistências e repertórios vivos que ainda hoje ampliam nossa compreensão sobre masculinidades plurais, potentes e conectadas à memória e ao futuro.

ANCESTRALIDADES

Texto e Publicação Amanda Coelho

1/12/20265 min read

Saudações, hoje partilhar um pouco sobre Cabelo, identidade e tecnologias ancestrais em uma perspectiva masculina.

A partir de clientes e amigos que que sempre me perguntam sobre os cabelos dos *bofes antes da colonização, faço essa partilha e singela contribuição, afinal tem muito close por esss portais, vem comigo !

África e povos indígenas como territórios vivos de memória, identidade e visualidade

O cabelo masculino era muito versátil. Era linguagem, território simbólico, marcador social, espiritualidade e tecnologia cultural assim como para as mulheres.

Entre povos africanos e indígenas, os cabelos dos homens comunicavam pertencimento, idade, posição social, rituais de passagem, força espiritual e relação com o território. Cada trança, raspagem, volume, pintura ou adorno carregava códigos compreendidos coletivamente.

É importante afirmar: não existia uma única estética, mas múltiplas visualidades, construídas a partir das cosmologias, climas, organizações sociais e modos de vida de cada povo.

Mesmo diante da violência colonial, alguns povos africanos conseguiram manter e preservar suas estéticas tradicionais. Ainda hoje, existem etnias que seguem transmitindo seus modos de trançar, raspar, adornar e cuidar dos cabelos masculinos como herança viva não como passado vivido, mas como prática cotidiana, identidade, resistência e continuidade.

Nessa relação com estética, identidade e ancestralidade não está apenas no passado ela pulsa no presente. Um exemplo potente desse movimento é o artista angolano Nzamba N’Kunkulu Mpetelo Messami (lado esquerdo da foto ), anteriormente conhecido como C4 Pedro. Em seu novo álbum, lançado recentemente chamado ANCESTRALIDADE e que, enquanto escrevo este texto, me acompanha como trilha e atravessamento, ele traz uma provocação profunda no território angolano e na diáspora ao falar da importância de vestir-se de si mesmo, da sua historia: do cabelo aos trajes tecidos, dos adornos aos fundamentos espirituais e identitários.

Esse retorno ao corpo ancestral é tão forte que atravessa inclusive seu nome artístico, marcando o surgimento dessa nova "consciência africana", alinhado aos seus ancestrais, à sua memória e ao legado coletivo. Observem como a estética chega e comunica antes mesmo dele falar, e eu particularmente tenho achado muito potente o posicionamento de muitos homens e alguns lideres africanos como também Ibraim Traoré, presidente de Burquina Faso.

Eu realmente desejo que essa repercussão se estenda inclusive pelo Brasil, justamente por apontar para uma masculinidade rica, pulsante, bela e presente, que rompe com os moldes coloniais.

Ao mesmo tempo, essa provocação não acontece sem tensão. Ela tem dividido opiniões, porque toca em camadas profundas do imaginário colonial ainda ativo. Enquanto para muitos homens esse retorno faz sentido e fortalece, para outros ele é marginalizado, deslegitimado e tratado como desvio. Surgem discursos que questionam sua sanidade, como se essa escolha não pudesse ser consciente, política e estética, mas fruto de “cumba”, “feitiço” ou algo negativo falas que, muitas vezes, partem dos próprios conterrâneos, amigos ou pessoas próximas.

Essa reação evidencia o quanto a estrutura colonial segue impregnada nas mentes, produzindo violências simbólicas e psicológicas contra quem ousa romper com o padrão. Revela como fomos ensinados a rejeitar aquilo que é nosso e como, ainda hoje, o retorno à ancestralidade pode ser lido como ameaça, quando na verdade é reconexão, cura e afirmação de existência.

Outra referencia desse movimento estético consciente à ancestralidade é o cantor senegalês Baba Maal na foto abaixo. Reconhecido mundialmente, com uma trajetória marcada por sucesso, visibilidade e circulação global, ele nunca rompeu com seus fundamentos. Pelo contrário: mantém viva sua ancestralidade e sua cultura também através da estética capilar, dos trajes aos tecidos, dos adornos à presença corporal que podemos contemplar em seus vídeos clipe e apresentações.

Baba Maal afirma, em imagem e som, que é possível ocupar lugares de evidência sem abrir mão de quem se é. Sua estética comunica pertencimento, memória e continuidade. Ele nos lembra que nossos passos vêm de longe, e que caminhar para o mundo não significa se afastar da origem, mas levá-la junto, como força, identidade e direção.

No Brasil, essa continuidade também se manifesta de forma potente Conteudo entre homens na região Norte e Nordeste do Pais, tendo também forte influencia dos homens indígenas, que em sua grande maioria mantêm até hoje suas estéticas ancestrais de cabelo e ornamentação. Essas visualidades seguem comunicando valores, espiritualidade, pertencimento e relação com a natureza, oferecendo um repertório riquíssimo para pensarmos as masculinidades para além dos padrões coloniais.

Essas estéticas não são apenas bonitas, são simbólicas tecnologias de cuidado, de proteção, de afirmação identitária e de leitura do mundo.

Na imagem abaixo grandioso escritor Airton Krenak , liderança indigena, e maryano maya comunicar e guardião indigena.

Ao olharmos para essas referências africanas e indígenas, ampliamos nosso entendimento sobre masculinidades plurais, sensíveis, potentes e conectadas à coletividade. Masculinidades que não se organizam pela negação do corpo, mas pelo reconhecimento de sua força estética, simbólica e espiritual.

Revisitar essas visualidades hoje é um gesto político, criativo e inspirador.

É beber de uma fonte ampla e potente para construir futuros mais diversos, conscientes e enraizados.

Este texto é um convite,

Se você quer saber mais sobre um povo específico, uma etnia, um território, rituais de cabelo ou estéticas masculinas ancestrais, comenta aqui.

A partir dos seus interesses, vou compartilhar conteúdos aprofundando essas histórias durante as partilhas.

Seguimos abrindo portais de beleza, memória, identidades presentes e futuros.

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